Por Vinicius Pereira

 

A crise causada pelo coronavírus (covid-19) alterou a percepção de gestores sobre quais companhias devem saltar na frente após o caos ou, ao menos, sofrer menos durante a pandemia e suas consequências econômicas. Para a Trígono Capital não foi diferente.
O sócio da Trígono Capital, Werner Roger, afirma que, com a crise, a gestora optou por uma estratégia de concentrar na carteira com empresas de receita em dólar, que exportam, e, se possível, com subsidiárias no exterior.

“Nos últimos dois meses, do Carnaval para cá, saímos de quatro empresas e reduzimos de outras que tinham menor liquidez, como Grazziotin, Portobello, Celesc. Já a Trisul saímos por conta da valorização que ela teve”, disse Roger.

“Estamos hoje concentrando em seis empresas com 72,5% da posição. Cinco delas com muita receita em dólar, seja com preço, cotação ou subsidiária no exterior. Ferbasa, São Martinho, Tupy, Schulz, Kepler Weber e JSL”, concluiu.

Confira a entrevista exclusiva do SUNO Notícias com Werner Roger, sócio da Trígono:

-Me fale um pouco da história da Trígono e como é a filosofia de investimentos da empresa?

A nossa história, e eu Fred (Frederico Mesnik, sócio da Trígono), começa em 1989, quando trabalhávamos e estudávamos juntos e, na hora do almoço, íamos ver o pregão. Por três vezes quase fizemos sociedade. Em 1992, fizemos um clube de investimentos e por três anos tivemos 35 investidores e o fundo foi muito bem. Com o dinheiro que ele ganhou lá, o Fred foi fazer MBA lá na London Business School.
Já tínhamos essa parceria por três anos e, em fevereiro de 2017, resolvemos montar a gestora. Em outubro daquele ano ela foi constituída. Em dezembro, entramos com pedido de licença e autorização na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), só que existia um clube de investimento desde 2008 que impedia eu de acumular as funções.

Em abril de 2007, lançamos os fundos de dividendos e o small caps e transformamos o clube de investimentos em fundos, que é o carteira livre. E, com o BTG, temos um fundo de previdência com 70% em ações. Cada um com sua estratégia.
Somos estritamente bottom up, vamos buscar valor das companhias, mas não olhamos setor. Não usamos o top down. Somos agnósticos em índice pois não temos nenhuma relação ou nos prendemos a índice. Por exemplo, hoje, só 3% do small caps está dentro do índice. Isso nos proporciona baixa correlação e também com outros gestores de small caps. Isso proporciona uma diversificação dentro do universo das small caps, por exemplo.

A terceira variável é a metodologia. Todas as casas usam múltiplo EV/Ebitda ou Fluxo de caixa descontado. Nós usamos o EVA para fazer valuation e como ferramenta de gestão.
O EVA é ,na tradução, Valor Econômico Adicionado. Utilizamos para determinar o valor justo ou intrínseco das empresas avaliadas, derivando o potencial de valorização, momento de maturação e de saída do investimento.
Desenvolvemos para a Trígono o ESG, que é outro pilar, com aspectos sociais e ambientais, e acreditamos nas cinco forças de Porter. Então temos dez critérios, cinco são avaliações de Porter, mas a ESG e de mercado.

Chegamos quase em um rating qualitativo e cruzamos a quantitativa, do valuation, e baseado nisso a gente chega no preço de entrada e saída.

A Suzano, por exemplo, é uma empresa que podemos ter um prêmio ao valor calculado no quantitativo.

Essa é a metodologia que usamos. É importante. Estamos nas principais plataformas de investimentos do Brasil.

-Como funciona esse EVA?
Uma empresa precisa de planta, um estoque e contas a receber. Digamos que ela tem R$ 1 bilhão de capital investido e R$ 100 milhões de crédito espontâneo dos fornecedores. Então temos R$ 900 milhões investidos em ativos econômicos.

Além disso, gestor não senta em conselho. Para nós, são coisas conflitantes.

-Como você vê essa crise atual?
Eu falo que sou filho da crise. Comecei em 1982, tiveram diversas crises no período, em 90 o plano Collor, que foi uma crise de liquidez com o congelamento. Já no final de 1987, com uma questão relacionada ao petróleo, a Bolsa despencou 23% em um dia. Aí depois veio crise do México, Rússia, Torres Gêmeas, enfim N crises. Chegou 2008, com uma crise forte e muito mais financeira.

O Brasil saiu muito bem de 2008, mas com muito crédito barato, e a conta veio lá na frente. Essa nova crise ela culminou novamente com o petróleo e, com o problema do coronavírus, ninguém sabe onde termina.

O que fizemos em 2015, quando Dilma começou a ter irresponsabilidade fiscal, nós adotamos uma estratégia de concentrar na carteira com empresas de receita em dólar, exportam, e com subsidiárias no exterior.

Nos últimos dois meses, do Carnaval para cá, saímos de quatro empresas e reduzimos de outras que tinham menor liquidez, como Grazziotin, Portobello, Celesc. Já a Trisul saímos por conta da valorização que ela teve.

Estamos hoje concentrando em seis empresas com 72,5% da posição. Cinco delas com muita receita em dólar, seja com preço, cotação ou subsidiária no exterior. Ferbasa, São Martinho, Tupy, Schulz, Kepler Weber e JSL.

A Schulz está envolvida com exportação. A Kepler Weber tem clientes ligadas a grãos, com silos e cooperativas, com empresas de agro, então os clientes são beneficiados pelo dólar. E a última que é a Julio Simões (JSL), de logística, não tem nada de dólar, mas os clientes deles sim. Sempre com baixo endividamento ou com dívida alongada.

-A crise alterou algo na estratégia?
Não. Justamente para não colocar todos os ovos, reduzimos os ovos e levo no colo. Tenho muito mais condições de controlar e estar próximo dessas empresas do que com 20 empresas. Se você tiver seis, sete nomes, fica mais fácil acompanhar de perto, além de empresas que têm muito caixa, dívida compatível com o caixa, para se ter muita liquidez.

Outra coisa é cadeia de produção e os fornecedores. E também a gestão de RH. Não adianta você mandar embora seus funcionários e contratar daqui três meses.

Na indústria, permite boa gestão com banco de horas, ajuste do salário e quantidade de horas para reduzir. Então a indústria tem a capacidade de reduzir horas, e depois voltar com três turnos.

Indústria é primeira a entrar em recessão e a primeira a sair. O varejo vive da cadeia de produção.

-Você acha que o investidor tomou riscos demais?

A gente não usa derivativo. Não temos short também. Tivemos um resgate de 15% daquilo que tínhamos sob gestão. Eu to com 50% do meu fundo em caixa e eu só posso ter índice na medida que eu tenho caixa, como uma proteção para o caixa.

Muita gente usou derivativos não só em relação a ações, mas moeda também, com gente vendida em dólar. Fundos alavancados também e às vezes não funciona. PF tem muito termo, mudança de margens.

Com o orçamento de risco maior, o gestor toma. E todas as premissas explodem e quem tem stop loss vende, ele estoura o orçamento de risco, causando a queda mais acentuada dos ativos. Isso prejudica quem investe e, por isso, não usamos. Quanto menor a volatilidade, maior o tamanho da corda da forca.
A corda está sempre no pescoço, mas antes ela tinha dois metros, agora ela tem cinco metros, quando ela cair, o cara não nem enforcado, ele é decapitado. Então acontece isso o que aconteceu. Por isso não usamos derivativos, ela te dá muito orçamento de risco e, quando a crise vem, ela é pega de calça curta. A crise vem, você não sabe quando. Por isso, cuidado.

 

Entrevista com a Trígono Capital

Fonte:https://www.sunoresearch.com.br/noticias/trigono-capital-crise/